Um futuro ameaçado

29 Ago 2018

 

Um futuro ameaçado

Depois de condensar a evolução do homem em "Sapiens - Uma Breve História da Humanidade" e projetar um futuro distópico em "Homo Deus - Uma Breve História do Amanhã", o escritor israelense Yuval Noah Harari olha para os dilemas que hoje se espalham pelo mundo. E eles são numerosos. Em "21 Lições para o Século 21", o historiador se propõe a examinar alguns deles a partir de questões que surgiram em conversas, entrevistas e nas palestras que deu nos últimos anos.

O talento de conjugar ciência, história e filosofia em textos leves e com provocações - como equiparar religião a "fake news" - transformou Harari em best-seller, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos. Seu novo livro tem uma pauta quente: do nacionalismo crescente às mudanças climáticas, do terrorismo à meditação.

Os riscos para a humanidade se multiplicam ao longo de 21 capítulos. Bilhões de pessoas poderão ser expulsas do mercado de trabalho e se transformar em uma classe de humanos irrelevantes em consequência da fusão da biotecnologia e da tecnologia, diz Harari. Os algoritmos talvez consigam compreender as pessoas melhor que elas mesmas.

PhD em história pela Universidade de Oxford e professor de história na Universidade Hebraica de Jerusalém, Harari considera que ainda há tempo para fazer escolhas. No momento, diz, não estamos fazendo as melhores opções. Em vez de responder às nossas necessidades de longo prazo, o desenvolvimento de nossas habilidades hoje se dá em função das necessidades do sistema econômico e político. "O verdadeiro problema com robôs não está em sua inteligência artificial, mas na estupidez e crueldade naturais de seus senhores humanos."

A seguir a entrevista que Harari concedeu ao Valor, antes do lançamento mundial de seu livro, no dia 30.

Valor: Quais são os maiores riscos e desafios que os seres humanos enfrentam hoje? É possível traçar um cenário de médio prazo?

Yuval Noah Harari: Ninguém sabe como o mundo será na segunda metade do século XXI, exceto que ele será muito diferente de hoje. Os três maiores desafios que enfrentamos são a guerra nuclear, as mudanças climáticas e a ruptura tecnológica. Se a guerra nuclear e as mudanças climáticas não destruírem a civilização humana, a inteligência artificial e a bioengenharia provavelmente nos darão poderes divinos de criação. Até 2100 provavelmente começaremos a criar formas de vida completamente novas. Isso poderá acontecer de três maneiras. A primeira é o uso da engenharia biológica para criação de novos tipos de seres orgânicos, ou seja, reprogramar o DNA humano para criar humanos mais inteligentes e de vida mais longa. A segunda é mais radical. Em vez de se limitarem a trabalhar com estruturas orgânicas, os designers do futuro também poderão usar partes inorgânicas e criar cyborgs, com partes orgânicas e inorgânicas, como humanos com mãos e olhos biônicos. Por fim, os designers poderão criar seres totalmente não orgânicos.

Valor: O que aconteceria?

Harari: Isso não é ficção científica. A maioria das tramas de ficção científica descreve um mundo em que o Homo sapiens - idêntico a nós - goza de uma tecnologia superior, como espaçonaves que viajam na velocidade da luz e armas de raio laser. Os dilemas éticos e políticos básicos dessas histórias são tirados de nosso próprio mundo, simplesmente recriando nossas tensões emocionais e sociais num cenário futurista. Mesmo assim, o verdadeiro potencial das tecnologias futuras é o de mudar o próprio Homo sapiens, incluindo nossas emoções e desejos e não apenas nossos veículos e armas. Em um século ou dois, a Terra provavelmente será dominada por entidades mais diferentes de nós do que somos diferentes dos neandertais ou dos chimpanzés.

Valor: Há muitas incertezas sobre a economia do futuro. Seu livro aponta, por exemplo, que o sistema monetário poderá ser completamente renovado pelas criptomoedas. A informação provavelmente será o ativo mais importante. A organização política atual consegue responder a isso?

Harari: Em uma palavra, não. Todos os modelos políticos que herdados do século XX deverão se tornar irrelevantes. Eles terão de se adaptar a novas circunstâncias tecnológicas, caso contrário poderão desaparecer. Mesmo assim, é impossível dizer quais novos modelos políticos surgirão para substituí-los, e se eles serão mais ditatoriais ou mais democráticos que os atuais.

Valor: Por quê?

Harari: No fim do século XX, as instituições democráticas e as economias de livre mercado funcionaram melhor que as ditaduras e as economias de planejamento central. Tendemos a pensar no conflito entre a democracia e a ditadura como um conflito entre dois sistemas éticos diferentes, mas na verdade trata-se de um conflito entre dois sistemas diferentes de processamento de dados. A democracia distribui o poder para processar informações e toma as decisões entre muitas pessoas e instituições, enquanto que a ditadura concentra a informação e o poder em um único lugar. Dada a tecnologia do século XX, era ineficiente concentrar tanta informação e poder em um único lugar. Ninguém tinha capacidade para processar todas as informações com rapidez suficiente e tomar as decisões certas. Mas a Inteligência Artificial poderá mudar o pêndulo para outra direção.

Valor: Estimulando ditaduras?

Harari: A IA possibilita o processamento central de quantidades enormes de informações. De fato, como o aprendizado de máquina trabalha melhor com quantidades de informações maiores, ele poderá tornar os sistemas centralizados mais eficientes que os distribuídos. Se você concentrar todas as informações sobre 100 milhões de pessoas em um único banco de dados, desconsiderando todas as questões de privacidade, você pode treinar muito melhor os algoritmos do que se respeitasse a privacidade individual e tivesse apenas informações parciais sobre 100 mil pessoas. Consequentemente, a principal desvantagem dos regimes autoritários no século XX - a tentativa de concentrar todas as informações em um único lugar - poderá se tornar a vantagem decisiva desses regimes no século XXI. É claro que não é inevitável que a IA vá empoderar as ditaduras e enfraquecer as democracias. Talvez novas tecnologias como o blockchain venham de fato a dar poder a modelos difusos em vez dos modelos centralizados. Tudo isso são apenas possibilidades, e não certezas. Mas precisamos levá-las em consideração enquanto criamos e desenvolvemos a IA. A tecnologia nunca é determinista. Podemos usar as mesmas inovações tecnológicas para criar tipos muito diferentes de instituições e sociedades. No século XX as pessoas podiam usar a tecnologia da Revolução Industrial - trens, eletricidade, rádio, telefone - para criar ditaduras comunistas, regimes fascistas ou democracias liberais. No século XXI, a ascensão da IA certamente transformará o sistema político, mas isso não implica em um resultado determinista único. Quem teme algumas dessas possibilidades, ainda pode fazer algo a respeito.

Valor: A IA poderá extinguir o valor econômico e a força política de parte dos humanos. Ao mesmo tempo, melhorias na biotecnologia poderão permitir que a desigualdade econômica se traduza em desigualdade biológica - com castas de super-humanos ricos com capacidades biológicas superiores. É possível evitar essa diferença crescente entre ricos e pobres?

Harari: É possível, mas a principal questão é quem controla os dados. Na antiguidade, a terra era o ativo mais importante do mundo, a política era uma luta pelo controle de terras e se muita terra ficava concentrada nas mãos de poucos, a sociedade se dividia entre aristocratas e plebeus. Nos últimos 200 anos, as máquinas e as fábricas se tornaram mais importantes que a terra, as lutas políticas se concentraram no controle das máquinas e se muitas máquinas acabavam concentradas nas mãos de poucas pessoas, a sociedade de dividia entre os capitalistas e os proletários. No século XXI, com os dados constituindo o ativo mais importante, a política será uma luta pelo controle do fluxo de dados. E se dados demais acabarem em poder de poucas pessoas, a humanidade vai se dividir não em classes diferentes, mas sim em espécies diferentes. O problema é que não temos um modelo de trabalho para regular a posse de dados. Este é um grande desafio para os engenheiros, advogados e filósofos.

Valor: O senhor identifica que a colisão entre os problemas globais e as identidades locais se manifesta na União Europeia. E diz que resolver o problema da imigração lá seria um teste de união global para enfrentar os atuais problemas. É possível substituir o avanço do nacionalismo por um consenso global para resolver, por exemplo, a questão das mudanças climáticas?

Harari: A chave é entender que todos os nossos maiores problemas - guerra nuclear, mudanças climáticas e ruptura tecnológica - são problemas mundiais e que não há soluções nacionais para problemas globais. Há, é claro, muitas coisas que os governos nacionais podem fazer para lidar com as mudanças climáticas. Os governos podem taxas as emissões de carbono, adotar regulamentações ambientais mais rígidas, cortar subsídios a indústrias poluentes e encorajar a mudança para as energias renováveis. Podemos também investir mais dinheiro na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias verdes revolucionárias como "clean meat" - produção de carne a partir de células, em vez da criação de animais inteiros. Se você quiser um bife, poderá fazer esse bife, em vez de criar e depois abater uma vaca inteira. Mas, para serem eficazes, todas essas políticas ecológicas precisam ser adotadas numa escala global. Quando se trata do clima, os países não são independentes. Eles estão à mercê das ações adotadas pelas pessoas do outro lado do planeta. A República do Kiribati - uma nação insular do Oceano Pacífico - poderia reduzir a zero suas emissões de gases de efeito estufa e ainda assim submergir por causa da elevação do nível dos oceanos, se outros países não fizerem o mesmo. Mesmo nações poderosas como o Brasil e a China não são ecologicamente soberanas. Para proteger Xangai e São Paulo de enchentes destruidoras e furacões, chineses e brasileiros terão de convencer os governos russo e americano a abandonar a postura do "business as usual".

Valor: Como crescer num país imerso em narrativas religiosas o influenciou?

Harari: Na minha parte do mundo, as pessoas se matam o tempo todo por acreditarem em mitologias variadas. Fanáticos muçulmanos como o Estado Islâmico já assassinaram dezenas de milhares de pessoas, convencidos de que Deus disse a eles para fazerem isso. Cresci em Israel com ônibus e restaurantes de minha cidade sendo repetidamente explodidos por homens-bomba muçulmanos, convencidos de que vão para o céu por fazerem a vontade de Deus. O governo israelense também justifica suas políticas em nome de mitologias religiosas. Ocupou a Cisjordânia e infligiu um sofrimento desnecessário a milhões de palestinos, supostamente porque Deus prometeu a terra sagrada aos judeus. Ele discrimina cristãos e muçulmanos porque acredita que os judeus são o povo escolhido de Deus, e que desse modo os judeus deveriam gozar de privilégios especiais. Quando você vive num lugar desses, não tem como permanecer indiferente às mitologias religiosas. Talvez este seja o motivo de eu, como acadêmico, ter tanto interesse por mitos, e por que é tão importante para mim a diferenciação entre a ficção e a realidade. Se você confunde a ficção com realidade, pode acabar sacrificando muitas pessoas em nome de uma história fictícia. Quando adolescente e posteriormente como estudante, eu queria muito saber o porquê de tanto sofrimento no mundo e na minha própria vida, e o que poderia ser feito a esse respeito. Mas tudo o que eu conseguia das pessoas que me cercavam e dos livros que eu lia eram ficções elaboradas: mitos religiosos sobre deuses e paraísos, mitos nacionalistas sobre a terra natal e sua missão histórica, mitos românticos sobre o amor e aventuras, ou mitos capitalistas sobre o crescimento econômico e como comprar e consumir coisas me deixarão feliz. Tive bom senso suficiente para perceber que tudo isso provavelmente era ficção, mas não tinha ideia de como descobrir a verdade.

Valor: O que o levou a buscar a meditação, que de certa forma está ligada à espiritualidade?

Harari: Enquanto fazia meu doutorado em Oxford, um bom amigo me importunou por um ano, tentando me convencer a fazer um curso de meditação Vipassana (www.sarana.dhamma.org/). Eu achava aquilo uma bobagem do tipo Nova Era. Mas após um ano de insistência, ele me convenceu a experimentar. Fiquei surpreso com a praticidade do ensino. O professor do curso, S.N. Goenka, instruía os alunos a sentarem-se de pernas cruzadas e olhos fechados, e voltarem suas atenções para o ar que entrava e saía de suas narinas. "Não façam nada", ele ficava dizendo. "Não tentem controlar a respiração ou respirar de uma determinada maneira. Atenham-se apenas à realidade do momento presente, seja qual for ele. Ao aspirar, você está ciente disso - agora o ar está entrando. Ao exalar, você está ciente disso - agora o ar está saindo. E quando você perde o foco e sua mente começa a divagar em lembranças e fantasias, você simplesmente sabe: agora minha mente se desviou da respiração". Foi a coisa mais importante que alguém já me disse. O retiro de meditação durou dez dias. Foi a coisa mais difícil que fiz em minha vida. Tentar permanecer focado na realidade foi incrivelmente difícil, porque a mente tenta constantemente evitar o confronto com realidades desagradáveis. Acho que aprendi mais sobre mim mesmo e sobre os seres humanos em geral durante esses dez dias do que o que aprendi antes em toda a minha vida. E para fazer isso, não precisei aceitar nenhum mito. Tive apenas que observar a realidade como ela é. A coisa mais importante que percebi foi que a fonte dos meus sofrimentos está nos padrões da minha própria mente. Quando quero algo e isso não acontece, minha mente reage gerando sofrimento. O sofrimento não é uma condição objetiva no mundo exterior. É uma reação mental gerada por minha própria mente. Desde aquele curso, em 2001, comecei a praticar o Vipassana por duas horas todos os dias, e todos os anos faço um retiro de meditação longo, por um mês ou dois.

Valor: Isso não concorre com seu ceticismo?

Harari: Não se trata de uma fuga da realidade. É entrar em contato com a realidade. Pelo menos por duas horas diárias eu de fato observo a realidade como ela é, enquanto nas outras 22 horas sou inundado por e-mails, tuítes e vídeos engraçados com gatos. Sem o foco e a claridade proporcionados por essa prática, eu não poderia ter escrito nenhum dos meus livros.

Fonte: Valor