Reforma da Previdência e juro baixo reduzem 15% da renda na aposentadoria

27 Jul 2020

 

Reforma da Previdência e juro baixo reduzem 15% da renda na aposentadoria

A reforma da Previdência e o novo patamar das taxas de juros no Brasil podem reduzir em cerca de 15% a renda total de aposentadoria de um participante de previdência complementar, estima a consultoria Mercer. No caso dos fundos de pensão, o cenário se aplica para os planos de contribuição definida (CD). Neles, o valor a ser pago ao participante, assim como na previdência aberta, depende do montante acumulado até a aposentadoria.

A solução depende de contribuições mais altas e uma maior diversificação da carteira de investimentos. A Mercer projeta que apenas 1% a mais de rendimento real do portfólio ao ano pode fazer uma diferença de 28% no patrimônio total acumulado, diz o líder de previdência da consultoria, João Morais (foto acima).

Segundo dados da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), cerca de 66% dos planos CD ainda estão em fase de acumulação e 33% dos participantes já são assistidos. A lógica se inverte nos planos de benefício definido (BD), que garantem aposentadoria vitalícia e praticamente a totalidade está fechada para novos entrantes. Neles, 85% das pessoas já são aposentadas, os chamados assistidos.

“É óbvio que a composição dos ativos é diferente de um plano em fase de acumulação. Então, nos planos CD, considerando as necessidades e as possibilidades de investimento, apetite ao risco é diferente”, disse o superintendente da Previc, Lucio Capelletto, lembrando da necessidade de governança robusta e controle de riscos eficazes.

De acordo com os cálculos da Mercer, desse impacto estimado de 15%, as mudanças na regra de previdência seriam responsáveis por 3%. Os outros 12% provém da queda da rentabilidade real projetada de 6% para 3% ao ano, conforme o cenário-base de longo prazo para a economia brasileira considerado pela consultoria.

Se um aumento das contribuições pode não estar ao alcance de todos por causa de limitações de orçamento, a diversificação está mais voltada à educação financeira dos participantes.

“A discussão da diversificação não é nova, mas a partir do momento em que a Selic cai, o custo de oportunidade também cai e o tema de diversificação começa a ganhar tração. Compreendemos que o efeito da pandemia criou um pouco de ruído na discussão. Agora é preciso agir cada vez mais”, disse Morais.

Para ele, será cada vez mais natural que os componentes de renda variável, fundos multimercados, investimentos estruturados ou no exterior ganhem mais relevância nos portfólios.

Parte dos planos de contribuição definida já oferece opções de perfis de investimentos — em que o participante deve escolher aplicar seus recursos de forma conservadora, moderada ou arrojada, por exemplo — e já fazem a análise de perfil do investidor ("suitability"). A partir de novembro deste ano, o suitability passará a ser obrigatório a todo o sistema, por determinação da Previc.

Na carteira de clientes da Mercer, de 2018 para 2019, quando o mercado acionário ainda colhia os frutos do chamado “bull market” (mercado em alta), houve um aumento dos perfis moderados. E durante a crise, mesmo os perfis mais conservadores tiveram resultados negativos pressionados pela crise.

Depois de terem atingido o fundo do poço em março, os fundos de pensão já começam a sinalizar uma recuperação, caso de Petros (Petrobras) e Previ (Banco do Brasil), como já noticiou o Valor.

Na Fundação Real Grandeza (Furnas), o plano BD zerou as perdas no ano e tem ganhos de 1,48%, enquanto o CD ainda está negativo em 1,23% no ano, de acordo com os dados até 21 de julho. “Temos que pensar no longo prazo. Não faremos grandes movimentações em carteira. Estamos contratando gestores e começamos a melhorar a performance em renda variável”, diz o presidente da fundação, Sérgio Wilson Ferraz Fontes. A fundação também concluiu recentemente as regras para contratação de gestores de fundos multimercado.

“Temos uma expectativa positiva para o fim do ano e a liquidez do sistema melhorou. Os planos têm capacidade plena de pagar suas obrigações. Os desafios são intrínsecos ao sistema, com a redução dos juros para os patamares mínimos. As entidades estão fazendo o dever de casa para essa nova realidade, o que já vinha sendo feito antes da crise”, afirmou Capelletto, da Previc.

O diretor da consultoria Roland Berger no Brasil, Daniel Martins, defende uma convergência das regras dos fundos de pensão e da previdência aberta. “A reforma da previdência abriu uma janela para a liberalização do mercado. A competição traz qualidade”, afirmou. Além disso, aponta que os fundos de previdência precisam entender que o propósito deles é permitir que as pessoas tenham uma jornada mais suave.

“É preciso um equilíbrio entre consumo e poupança. As pessoas não guardam dinheiro apenas para sobreviver”, disse Martins.

Fonte: Valor Investe