Fundos de pensão adiam ida para bolsa e voltam a considerar NTN-Bs

26 Mar 2020

 

Fundos de pensão adiam ida para bolsa e voltam a considerar NTN-Bs

Os planos dos fundos de pensão para aumentar sua exposição em renda variável entraram em compasso de espera com o declínio das bolsas em todo o mundo, sob o impacto da pandemia do novo coronavírus. Por outro lado, para parte do mercado, as NTN-Bs de longo prazo voltaram a ficar atrativas nos últimos dias, pagando prêmios em linha ou acima das metas atuariais, e podem até voltar a ocupar o espaço que havia sido reservado para alocar em bolsa.

Com algumas exceções, a alocação das fundações em bolsa não chega a 10% e havia um consenso de que iriam finalmente começar a aumentá-la este ano, em virtude da redução dos juros e consequente perda de atratividade dos títulos do Tesouro. Muitas iniciaram o ano com caixa para fazer alocações em renda variável. Ao longo de janeiro, estudos foram realizados e uma parte pequena de alocações foram feitas, diz o sócio da consultoria Aditus, Guilherme Benites.

“Inicialmente, a queda da bolsa poderia ser uma oportunidade interessante para comprar a preço mais baixo. Agora, as taxas das NTN-Bs estão mudando. Parte do dinheiro que iria para bolsa vai ter outro direcionamento”, afirmou. As NTN-Bs de longo prazo já estão pagando taxas acima de 5%. Parte dos fundos de pensão tem uma meta atuarial em torno de 4,5% mais IPCA.

Em geral, os fundos de pensão estão monitorando a situação para entender qual a melhor estratégia. Não há nem uma disposição para realizar prejuízos nem aproveitar para comprar os ativos em liquidação. Nos últimos dias, clientes procuraram a consultoria para entender se era hora de entrar ou sair da bolsa, mas não houve uma grande disposição de reduzir a já pequena exposição.

“O cenário para bolsa é imprevisível. A meta [atuarial] deste ano está absolutamente comprometida”, afirma Benites. Nos dois primeiros meses do ano, a rentabilidade dos 263 planos administrados por clientes da Aditus, que totalizam mais de R$ 200 bilhões, foi de 0,35%, ante meta de 1,1%.

“Não é em função de um ajuste de posições que vamos conseguir impedir um resultado negativo no primeiro trimestre. Será um período para mitigar perdas”, disse o diretor de investimentos da Funcesp, fundo de pensão das empresas elétricas de São Paulo, Jorge Simino. A fundação fechou 2019 com 16% de seu portfólio aplicado em renda variável, mas vendeu cerca de 5% quando a bolsa estava na casa dos 90 mil pontos.

“Vendemos no meio da pancadaria, mas não foi quando a bolsa estava em 115 mil pontos. Achamos que o cenário estava se deteriorando em termos econômicos, lá fora e aqui dentro. Em dezembro já havia questionamentos sobre o tamanho da desaceleração da economia mundial”, disse.

O ano de 2019, disse ele, já deixou saudades - a rentabilidade da Funcesp foi de 17,25%. A fundação não fez novas aplicações e mantém dinheiro em caixa, além de ter reduzido o risco em fundos terceirizados exclusivos.

“Os fundos de pensão não pensam no curto prazo. Temos uma história, inclusive, de sairmos bem das crises”, afirma o presidente da Fundação Real Grandeza (Furnas), Sergio Wilson Ferraz Fontes. A fundação tem parte dos seus ativos em caixa para aproveitar oportunidades do mercado. “Estamos preparados para fazer a virada logo em seguida e sem pressa”, completa.

O momento é de discussão dos estudos atuariais e cenários, segundo a diretora de investimentos Patricia Souza. “A crise gera distorção de preços e o momento é de rebalanceamento dos estudos”, diz.

Recentemente, o presidente da Previ, José Maurício Coelho, disse ao Valor que ainda há incertezas sobre o tamanho do impacto do covid-19 na economia global. “No momento, o melhor a fazer é observar os mercados. Estamos aguardando para analisar os efeitos da crise”. As declarações, no entanto, foram dadas antes da Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado pandemia do vírus. A política de investimentos da Previ prevê, a partir de 2020, ajustes em sua estratégia em busca de diversificação para uma carteira de renda variável menos concentrada.

Com sede em Belo Horizonte (MG), a fundação Libertas, que tem entre seus associados funcionários de estatais mineiras como Copasa, Prodemge e Codemge, chegou a fazer algumas alocações em bolsa diante dos primeiros recuos, mas decidiu parar e preservar recursos em caixa.

Com investimentos da ordem de R$ 3,6 bilhões, o fundo de pensão previa aumentar alocação em ações dos atuais 8% para até 15%, a depender do plano. E também aplicar recursos no exterior. “Já tem NTNs [pagando] acima de 5%. Está todo mundo sofrendo com abertura de taxas, quem tem [títulos] marcados a mercado está sofrendo, mas elas voltaram a ficar atrativas”, disse o presidente da fundação, Lucas Nóbrega.

Fonte: Valor Econômico